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É preciso falar sobre coisas difíceis

ECOA

25/01/2020 04h00

"Chega uma hora em que a gente precisa parar de tirar as pessoas de dentro do rio. A gente tem de navegar nele e descobrir por que elas estão caindo." – Bispo Desmond Tutu

Ano passado, na África do Sul, eu chorei. Eu estava a trabalho em Joanesburgo e em uma folga eu visitei o museu do Apartheid. Foi uma das melhores e piores coisas que eu fiz em uma viagem. Pois ao mesmo tempo que encontrei um museu lindo, rico e de extrema importância cultural e política, eu acabei com a minha folga que eu estava precisando demais.

Eu já havia ido à África do Sul algumas vezes a trabalho e uma coisa sempre me impressionou na população: a resiliência e a capacidade de conversar sobre assuntos muito difíceis de maneira fácil. Foi nesse museu que eu entendi o porquê disso.

O Apartheid foi um regime oficial do estado sul-africano de segregação racial e dominância da minoria branca sobre a maioria negra. De 1948 a 1990, os brancos tinham a liberdade de fazer atrocidades com a população negra. Algumas delas físicas, outras emocionais e morais. Mas não foi nada bonito. Os negros da oposição também fizeram sua parte de violência. Vale lembrar que Nelson Mandela – sim, aquele velhinho gente fina com as camisas coloridas que a gente vê por aí hoje dançando em GIFs na internet – foi preso por ser líder de um grupo paramilitar armado e ficou na lista de terroristas do governo americano até 2008. Catorze anos depois de ele ser eleito presidente da África do Sul, virando o primeiro negro do país a alcançar a Presidência. 

Uma das coisas que o Mandela fez na sua presidência foi a Comissão da Verdade e Reconciliação. Um grupo, liderado pelo bispo ativista Desmond Tutu, cuja missão era a de investigar todos os abusos de direitos humanos cometidos por membros do governo sul-africano e a oposição durante o Apartheid.

Para mim, a principal coisa que Tutu fez na Comissão da Verdade e Reconciliação foi trazer o conceito de confissão e perdão da igreja para a política. Durante dois anos, ele promoveu audiências públicas televisionadas onde pessoas de todas as cores e classes sociais confessavam em detalhes atos horrendos que eles cometeram contra outras pessoas. 

E aqui é onde eu entendi muito da diferença de como os africanos reagem a coisas difíceis e como a gente reage. A diferença é que não muito tempo atrás eles foram obrigados a falar e a ouvir uns aos outros. Eles foram falaram e ouviram de coisas monstruosas e inimagináveis para a maioria da pessoas. Eles tiveram de olhar nos olhos daqueles que perpetuaram crimes terríveis e daqueles que ficaram para trás. Eles tiveram de dialogar. Eles tiveram que aceitar que aquilo aconteceu. Que doeu. Que dói. Mas que agora eles colocaram para fora e que eles podiam criar a "nação arco-íris" que Mandela, Tutu, Tambo e todos os outros líderes pós Apartheid tanto sonharam.

Essa é uma lição que a gente, como brasileiro, e ouso até a falar como ocidentais, não aprendeu ainda. A gente tem uma dificuldade enorme de dialogar sobre o passado e sobre erros cometidos. Mesmo esses erros não sendo nossos. Bandeirantes massacraram tribos inteiras de índios e só falamos do lado heróico deles. O regime militar torturou e matou milhares de brasileiros. Temos racismo, homofobia e elitismo no nosso DNA. Podemos ser pego roubando, traindo, colando na prova. Mas nunca falamos sobre isso. É um eterno jogo de "não tá comigo!".

O comediante Trevor Noah usou uma metáfora para falar de um tema parecido que é como se você fosse ao médico e ele descobrisse um câncer e ela virasse para você e falasse, "então, como eu não estava lá quando esse câncer nasceu, a culpa não é minha e não tem nada que eu possa fazer por você."

Se confessar e depois ter alguém que te perdoe é difícil. Se é difícil para fiéis da igreja, imagina para os não fiéis. Mas é isso que fizeram na África do Sul mesmo que tivesse aberto feridas que estavam começando a cicatrizar. Eles talvez impediram que feridas maiores se abrissem no futuro.

Talvez é isso que falte para a gente aqui, no individual e no coletivo. A gente tem que ouvir e falar com o outro. A gente tem que assumir que errou. A gente tem que assumir que talvez a maneira de fazermos as coisas, só porque é a oficial do governo/empresa/familiar não é a certa. A gente tem que assumir que nossos heróis talvez erraram. E a gente só vai fazer isso se a gente se a gente ouvir um ao outro e se a gente falar. No Brasil, a maioria das pessoas que contestam as coisas são vistas como chatas, esquerdistas, arruaceiros, contraventores.

Como diz a citação no começo desse texto, a gente passou da hora de tentar resgatar as pessoas que caíram no rio. A gente tem que entender o por que elas estão caindo. A gente tem que contestar o porquê de elas estarem lá. Pois elas estão caindo e logo mais vão levar todos nós junto com elas.

O que Tutu e sua comissão fizeram foi isso. Foi colocar pessoas ouvindo pessoas. Pessoas falando de coisas que fizeram no passado, para que as pessoas do presente não as repitam no futuro. Foi simples. Foi importante. Em muitas dessas audiências, Tutu não aguenta e chora. Assim como eu chorei, quando descobri essa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

M.M. Izidoro é contador de histórias e criador da campanha #EuEstou, para promover a saúde mental e a prevenção do suicídio entre adolescentes no Brasil

Sobre o Blog

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você