PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Eu desisto

ECOA

14/12/2019 04h00

Eu desisto.

É 1 de dezembro de 1955. Rosa Parks pega um ônibus na cidade de Montgomery, no estado de Alabama, nos Estados Unidos. Ela se recusa a acatar as ordens do motorista  James F. Blake para que ela se sentasse no fundo do ônibus, pois essa era a parte separada para os negros. Ela não foi a primeira pessoa negra a enfrentar o sistema de segregação. Mas sua prisão virou um símbolo de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Uma luta que vitimou muitos negros que vieram antes dela e outros tantos que vieram depois, mas que também inspirou outros milhares. Rosa Parks, não estava sozinha.

É o carnaval de 2018. Em um bloco de rua em São Paulo, um ataque de pânico toma conta de mim. Em meio a milhares de pessoas, eu me sinto sozinho. Consigo chegar em casa e uma sombra me encobre. Por muito pouco, ela não me sufoca por inteiro. Eu pedi ajuda. Muitos não sabiam o que fazer, outros nem ouviram. Eu continuava sozinho.

É 20 de julho de 1969. Neil Armstrong dá aquele que seria "um pequeno passo para um homem, mas um passo gigante para a humanidade." Ele está na Lua. Mas ele não está sozinho. Logo atrás dele está Buzz Aldrin, e em órbita, Michael Collins. Isso sem contar as centenas, ou até milhares, de pessoas que de alguma maneira ajudaram Neil a dar seu pequeno passo na Lua. Ele não estava sozinho.

É 12 de setembro de 2018. Aquela sombra que tomou conta de mim no carnaval, virou luz. Estavamos lançando o #EuEstou. O projeto que literalmente salvou a minha vida. Eu precisava entender o que tinha acontecido comigo e nesse processo dividir com as pessoas que estavam passando pela mesma coisa que eu tinha passado. Eu não tinha chegado ali sozinho.

É 29 de maio de 1953. São 11h30 da manhã quando Edmund Hillary chega pela primeira vez no topo do Monte Everest. Ele não estava sozinho. Logo atrás dele estava seu guia sherpa, Tenzing Norgay. Eles faziam parte da expedição Hunt, que contava com mais de 400 pessoas entre exploradores e guias. Ele não estava sozinho.

É 09 de novembro de 2019, o #EuEstou é um sucesso. Nós já alcançamos mais de 25 milhões de pessoas no Brasil com nossos conteúdos e agora eu estou indo apresentar isso em um evento TEDx no Colégio Dante Alighieri. Na preparação do evento, eu estava com medo. O mesmo ataque de pânico que deu origem a essa jornada toda, mostrou que estava ali na minha espreita. Qualquer deslize ele me pegava de novo. Nos dias antes da apresentação, eu pedi ajuda. No dia da apresentação, eu pedi ajuda. Nos dias depois da apresentação, eu pedi ajuda. Ninguém apareceu. Eu estava sozinho de novo.

É 02 de fevereiro de 1991. Um homem chamado João para no acostamento de uma rodovia em São Paulo. Ele acabara de ver um carro ser jogado para fora da estrada. Ele resolve ajudar. O carro está capotado. Minha mãe e minha irmã voam para fora do veículo. Eu fico dentro. Sozinho. Eu quebro as janelas do carro com o meu rosto. Todo o lado direito dele é destruído. Tomo mais de 1500 pontos. Mas isso só aconteceu, por que um homem chamado João parou seu carro na beira da estrada e nos resgatou. Muitos médicos e familiares cuidaram da gente por meses e anos. Alguns ainda cuidam. Eu não estava sozinho.

"Não é que seja impossível ser feliz sozinho. É que sozinho, ninguém é nada." Vinicius Calderoni escreveu ao fim da música "Juventude em Marcha" do seu álbum "Tranchã". A letra da música diz:

Bom mesmo é encontrar os pares

Ir contrabandeando ideias torna as tardes

Mais solares

Não é exatamente passeata

Mas é hora muito grata para abrir os paladares

….

Não são tão fundamentais

Questões viscerais

Essas e outras mais

Se eu falo por mim

E você também

É por isso que eu desisto.

Seja sendo o símbolo de resistência, com o pouso do homem na Lua, escalar o Everest, criar uma plataforma de promoção de saúde mental na internet ou salvar uma família que sofreu um acidente de carro, não se faz nada sozinho. Se nós quisermos fazer qualquer coisa, temos de achar nossos pares. Nossos iguais. Temos de juntar forças. Gritar junto. Dançar no mesmo ritmo. Cantar a mesma música. Rir da mesma piada. Chorar da mesma tragédia.

Na mesma música do Vini, o refrão diz:

Então canto para que?

Grito contra quem?

Vou atrás de que?

Eu ando me perguntando muito isso de diversas maneiras.

Não adianta eu ficar me doando para escrever coluna aqui no UOL ou produzir vídeos e podcasts para as redes do #EuEstou, se vocês não me ajudarem. A única maneira que tudo vai melhorar é a gente sonhar o mesmo sonho. É a gente ser gentil com a gente e depois com o outro. A gente ressignificar o que a gente é para poder depois ressignificar e mudar o mundo a nossa volta. É a gente estender a mão para fazer carinho e não o ódio. É a gente ter uma rede de apoio que pode estar lá quando a gente precisar e que conte com a gente quando eles precisarem.

O #EuEstou só existe por que eu encontrei o PC Siqueira, a Karen Scavacini, o Steve ePonto, o Guilherme Pinheiro, o André Soler, a Olivia Lang, o Fábio Yabu, a Adélia Jeveaux, a Bruna Saddy e mais várias pessoas que toparam explorar esse Everest comigo e eu com eles. Como qualquer exploração desse tipo, eu ajudei a mudar algumas pessoas, mas elas com certeza me mudaram por inteiro.

Então agora, não dá mais para pousar em outro corpo celeste se você aí do outro lado não estiver comigo. Se o "eu fiz", não se transformar em "nós fizemos". Eu sinto que as pessoas estão com medo da conexão, do amor e do afeto. O que importa é o resultado e a entrega em coisas efêmeras como dinheiro e trabalho. O amor assusta. Por medo de serem machucadas, elas preferem a solidão à possibilidade de uma conexão.

Eu não tenho medo. Em 2020, eu não vou estar mais sozinho. Eu vou ter você do meu lado. Você vai ter outra pessoa, que vai ter outra pessoa, que vai ter outra pessoa e assim por diante. É assim que a gente vai fortalecer a nossa rede. É assim que vamos ficar bem.

É 14 de Dezembro de 2019. Eu estou publicando a minha última coluna do ano no UOL Ecoa. Nela, tem um podcast com o audio da minha palestra no TEDx Dante Alighieri, onde eu conto todas as lições que eu aprendi falando de morte na internet no último ano. Onde – dando um spoiler – a maior lição é que não podemos estar sozinhos. Que mesmo eu me sentindo sozinho em vários momentos, eu não estava. Muitas pessoas me ajudaram a chegar na Lua, outras no topo da maior montanha do mundo, outras me tiraram com as suas próprias mãos de dentro de um carro destruído. 

É por isso que eu desisto.

Desisto de sonhar sozinho que tudo pode ficar bem, afinal até Dom Quixote tinha Sancho Pança e Roncinante lhe fazendo companhia para lutar contra seus gigantes. 

Desisto de sonhar sozinho que amanhã vai ser melhor, por que o hoje é tudo que nós temos.

Desisto de sonhar que tudo vai dar certo, quando parece que ninguém mais aceita afeto e as ideias que reverberam são as de ódio e destruição.

Então, se você aí do outro lado dessa tela não vier sonhar e agir nesse sonho comigo, pra que continuar?

Mas se você quiser vir comigo, eu desisto é de desistir.

Sobre o Autor

M.M. Izidoro é contador de histórias e criador da campanha #EuEstou, para promover a saúde mental e a prevenção do suicídio entre adolescentes no Brasil

Sobre o Blog

A cada 15 dias, vamos contar notícias boas da vida real que aconteceram com gente de verdade como eu e você

M.M. Izidoro